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Introduo:
O que  o Dilema Humano? 
Contudo, no devemo  encarar levianamente o paradoxal; o paradoxo  a fonte da paixo do pensador e o pensador sem 
paradoxo  como o amante sem  entimento: uma triste mediocridade. 
 KIERKEGAARD, Fragmente, pg. 29. 

UMA VEZ POR OUTRA, surpreendo-me tendo uma curiosa fantasia. Ela se desenrola mais ou menos assim. 
Um psiclogo  qualquer psiclogo ou todos ns  chega s portas do Cu, no termo de sua longa e frtil vida.  levado  
presena de So Pedro para a habitual prestao de contas. Formidvel,  So Pedro est calmamente sentado atrs de sua 
mesa, parecendo o Moiss de Miguel ngelo. Um anjo-secretrio, trajando uma jaqueta branca, coloca sobre a mesa uma 
pasta que So Pedro abre e folheia, franzindo o cenho. Apesar da expresso terrvel da fisionomia do juiz, o psiclogo 
aperta sua maleta e avana com louvvel coragem. 
Mas a expresso carrancuda de So Pedro acentua-se. Tamborila com os dedos na mesa e resmunga alguns hum-hum 
indeterminados, enquanto fixa no candidato seus olhos mosaicos. 
O silncio  desconcertante. Finalmente, o psiclogo abre sua maleta e grita: Aqui est! So as cpias dos meus cento e 
trinta e dois ensaios. 
So Pedro balana lentamente a cabea. 
Enfiando a mo ainda mais fundo em sua maleta, o psiclogo diz: Permita-me que lhe apresente as medalhas que recebi 
por minhas realizaes cientficas. 
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A carranca de So Pedro permanece inaltervel, enquanto continua olhando fixamente para o rosto do 
psiclogo. 
Finalmente, So Pedro toma a palavra: Tenho perfeito conhecimento, meu bom homem, de como voc  
industrioso. No  de preguia que o acusam. Nem de um comportamento anticientfico. Silenciando de novo, 
a expresso de seus olhos torna-se ainda mais sombria. O psiclogo apercebe-se de que, muito antes da 
confisso tr sido encampada pelo div do analista, ela era tida em alta conta nesta mesma portaria. 
Bem,  verdade, ele admite, numa bela demonstrao de franqueza, que destorci um pouco os dados na 
minha pesquisa para a tese de doutorado. 
Mas So Pedro nem por isso se mostra mais aplacado. No, diz ele, pegando no impresso Modelo A-1 da 
pasta, no  imoralidade o que consta neste documento do processo. Voc  to tico quanto qualquer outro 
homem. Tampouco o estou acusando de ser behaviorista, ou mstico, ou funcionalista, ou existencialista, ou 
rogeriano. Esses so apenas pecados secundrios. 
Ento, So Pedro d uma palmada ressonante na mesa e o tom de sua voz  como o de Moiss, anunciando os 
Dez Mandamentos: Voc  acusado de nimis sim plicandum! 
E continua: Voc  acusado de ter passado sua vida fazendo das coisas um bicho de sete cabeas... eis do 
que voc  culpado. Quando o homem era trgico, voc fazia com que ele parecesse trivial. Quando ele era 
picaresco. fazia com que parecesse mesquinho. Quando ele sofria passivamente, voc descrevia-o como tolo; e 
quando reunia coragem suficiente para agir, voc chamava a isso estmulo e resposta. O homem tinha paixo; e 
quando voc lecionava pomposamente os seus alunos, chamava a isso a satisfao de necessidades bsicas: 
e quando voc estava descontrado e olhando para a sua secretria, chamava isso descarga de tenso. Voc 
fez o homem  imagem e semelhana do Jogo de Mecano dos seus tempos de crianca ou das mximas 
decoradas na Escola Dominical.., ambas as coisas igualmente horrendas. 
Em resumo, ns mandamos voc  Terra por setenta e dois anos para um circo dantesco, e voc passou os 
seus aias e noites em espetculos baratos! Nimis sim plicando! * Reconhece-se culpado ou inocente? 
* Os latinistas dizem-me que nimi  significa excessivo e sim plicandum significa simplificante. Ou, em nossa 
linguagem mo derna, super-simplificaes, excessiva esquematizao. 
Oh, culpado, meritssimo juiz celestial, gagueja o psiclogo. Ou melhor, quero dizer culpado... porque eu 
estava tentando estudar o homem tal como ele se comporta. No  essa a finalidade da Psicologia? E o vosso 
prprio Livro Sagrado diz que o homem  um verme e no h sade nele. Assim, no estava eu 
desempenhando a tarefa que se esperava de mim? 
So Pedro varre o Modelo A-1 da mesa com o antebrao e debrua-se sobre o rosto do psiclogo. 
Voc nem mesmo viu o homem que estava estudando! Voc acha que eu no sei que ele  um verme, por 
vezes? Mas esse verme tambm se ergue de p e coloca pedra sobre pedra para edificar o Partenon. E esse 
homem tambm fez, certa noite, uma pausa no deserto, s margens do Nilo, e contemplou as estrelas, e 
meditou. E quando as estrelas se apagaram no horizonte, ele voltou  sua caverna, na encosta de uma colina, e 
estudou as pernas de bis pintada em sua cermica. E apanhou um graveto carbonizado de sua fogueira e com 
ele desenhou um tringulo na parede, criando a matemtica. E assim se ensinou a si prprio as rbitas das 
estrelas, e aprendeu a plantar suas searas de acordo com as mars do Nilo. Um verme faz isso? Voc esqueceu 
tudo isso, no foi? 
O psiclogo deu um passo atrs. Meritssimo, eu apenas tentei deixar o homem falar por si prprio!. 
Oh, foi isso, foi? E que me diz de todos esses experimentos? So Pedro aponta para a maleta ainda aberta. 
Eu li os seus ensaios a noite passada, no microfilme celestial, quando tive conhecimento de que voc estava 
chegando. Que me diz de todos aqueles experimentos em que a diretriz bsica consiste em mentir ao seu 
homem? Aperte este boto, isso provocar uma dor no camarada que est do outro lado da janela. E voc 
preparou o homem que servia de isca para fazer caretas de dor, en trando no seu jogo. Classe? Qual  a linha 
mais comprida? Oh, a mais comprida  a mais curta. E voc, pobre diabo, ainda continua afirmando 
estupidamente que a linha mais comprida  a mais comprida, contra a opinio de toda a classe? 
So Pedro suspira e volta a recostar-se no seu cadeiro. Confesso que h uma coisa que eu nunca consegui 
entender a respeito de vocs. Assim que se apanham com o diploma de doutores, passam a supor que podem 
ludibriar os outros seres humanos o tempo todo. Voc no poderia enganar o seu cachorro dessa maneira... ele 
teria imediatamente enxergado a simulao. 
O psiclogo tentou defender-se: Mas todos os sujeitos participaram de boa vontade nas experincias. . . Mas 
sua voz foi 
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logo abafada pelo vozeiro estentrico de So Pedro: Oh, no pense que eu no sei disso... o animal humano 
tem uma grande capacidade para fingir que  ludibriado e no deixar sequer aperceber-se de que est fingindo. 
Mas era a voc que eu tinha em melhor conceito.. . e espetou um longo dedo descarnado na direo do 
psiclogo. Voc pensou que todo o mundo podia ser ludibriado. Todos menos voc. Voc sempre sups 
que, sendo o enganador, nunca era enganado! No  uma teoria muito coerente, no lhe parece? 
So Pedro solta um suspiro. O psiclogo abre a boca mas- So Pedro ergue a mo, imperativo. Por favor! 
Poupe-me ao seu falatrio bem exercitado. Algo novo  preciso... algo de novo. E recosta-se, meditando. 
E POR ESTA altura dos acontecimentos tambm dou comigo meditando. A fantasia tem muitas concluses  
tantas quanto o nosso estado de esprito em dado momento. Mas, seja qual for a concluso e a nota que cada 
um de ns possa ter no exame de admisso celestial, no deveremos indagar se So Pedro no ter, como  
costume dizer, apanhado alguma coisa? 
Assim, este livro comeou num tom de irreverncia. E receio bem que seja minha obrigao advertir o leitor de 
que o presente captulo, pelo menos, continuar nesse tom. Pois no  certo que, em Psicologia, 
menosprezamos, quando no suprimimos completamente, na maior parte das vezes, consideraes de 
importncia bsica na experincia humana? Proponho-me citar algumas dessas consideraes que me ocorrem, 
as quais se aglomeram em torno do que designarei aqui como o dilema humano. 
O que  o dilema humano? Permitam-me que o ilustre em sua forma mais elementar; e embora esteja 
esquematizando, espero no ser culpado de nimis simplicandum. 
Aqui estou sentado diante da minha mquina de escrever, numa certa manh em que estou datilografando um 
dos captulos que se seguem neste livro. Enquanto trabalho, sinto-me como um homem que tem de escrever 
um captulo at o fim, qu se fixou um prazo para faz-lo, que tem pacientes que viro consult-lo nessa tarde e 
que por isto deve estar preparado para receb-los a partir das duas horas, e que tem de tomar algum remdio 
para cortar um resfriado ameaador. Dou uma olhada ao relgio e conto rapidamente o nmero de laudas que 
completei at esse momento. Enquanto escrevo, sinto a presso de um pensamento desconsolador: O meu 
colega, o Professor Fulano, no gostar deste ponto; talvez eu devesse toldar um pouco a  minha idia... faz-
la soar mais profunda e no to fcil de atacar. Rechao nobremente essa ignbil tentao; mas escoro as 
defesas do meu argumento, depois afasto-me dos pensamentos que se intrometem e volto  mquina de 
escrever. 
Ora, no estado que acabo de descrever, estou me vendo e tratando como um objeto, um homem a ser 
controlado e dirigido para desempenhar mais eficazmente a tarefa em mos. Note-se que as minhas frases giram 
em torno de verbos tais como tenho de, devo, fixar um prazo. E a pergunta que fao a mim prprio  alguma 
variao de Qual  a melhor maneira de fazer isto? Qual a tcnica mais eficaz? O tempo  externo, 
estabelecido pelo calendrio e o relgio. Trato-me como um indivduo que deve ajustar-se; sinto-me 
contente, nesse momento, por ser uma criatura de hbitos, sem muita margem para decidir sobre o meu 
comportamento; e a minha finalidade  fazer essa margem ainda mais reduzida, controlar o meu comportamento 
mais rigidamente, de modo que o meu captulo seja concludo o mais rapidamente possvel. 
Mas, ao continuar escrevendo, vejo-me subitamente empolgado por uma idia interessante. Ah, eis algo que 
esteve brincando durante anos nas fronteiras da minha conscincia  que perspectiva estimulante elaborar 
agora essa idia, form-la, ver onde ela me conduz! Olho por um instante pela janela, cogitando, depois 
continuo escrevendo, sem dar-me conta da passagem do tempo. Dou comigo pensando: Esplndido! Esta 
idia concatena-se com a argumentao toda... quero inclu-la aqui, tenho de reorganizar o captulo inteiro para 
isso. E experimento uma sensao exultante de isto-ter-valor, vale a pena que algum o leia. Agora, 
quando me surpreendo pensando: O meu colega Fulano no gostar disto... quase no paro para dizer azar 
dele se no gostar, eu quero escrev-lo, de qualquer modo. Continuo datilografando e, de sbito, no que 
parece ser apenas alguns minutos depois, dou-me conta de que s doze e trinta, tendo passado meia hora do 
tempo em que programara parar. 
Neste segundo estado  cuja descrio revela, indubitavelmente, as minhas prprias inclinaes  estou vendo-
me no como um objeto mas como um sujeito. As minhas frases gravitam agora em torno de verbos tais como 
quero, desejo, sinto, em vez de tenho e devo. No primeiro estado, eu era o objeto do tempo; neste 
segundo estado, sou o seu sujeito. J no sou o escravo do tempo, mas tampouco o relgio e o calendrio 
so completamente irrelevantes, O tempo abre-se  minha frente para eu us-lo como preferir. No 
primeiro caso, coloquei-me
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num estado determinstico; no segundo, o acento  sobre a minha margem de liberdade e de oportunidade para 
escolher e moldar o meu comportamento,  medida que avano. A meta do primeiro estado  o comportamento 
eficiente, o significado do que fao  eminentemente extrnseco s minhas aes. O acento, no segundo 
estado, recai sobre a experimentao e a escolha de coisas de significao intrnseca. Uma vez mais, os verbos 
so ilustrativos; no primeiro estado, ter de, dever, fixar, esto relacionados como o comportamento ao servio 
de um valor externo, que eu aceitei, pelo menos parcialmente, ao escrever o captulo. No segundo, querer, 
desejar, sentir, so verbos que esto vinculados ao ato ntimo de avaliar,  atribuio ntima de um valor. 
O dilema humano  o que decorre da capacidade que tem o homem de sentir-se, simultaneamente, como 
sujeito e objeto. Ambas as capacidades so necessrias  para a cincia da Psicologia, para a terapia e para uma 
existncia satisfatria. 
Este dilema pode ser ilustrado a todo momento, em psicoterapia. Posso encarar o meu paciente, em termos de 
categorias de diagnstico, como um organismo que se ajusta em maior ou menor grau a um tal e tal padro. Sei, 
por exemplo, que a urinao freqente est relacionada amide, em nossa cultura, com padres competitivos 
no indivduo. Esta abordagem toma o paciente como objetivo e , por um lado, inteiramente legtima. Mas no 
posso, nesse momento, identificar-me com o paciente, experimentar o que este est experimentando. 
Estritarnente falando,  medida que o vejo como um objeto, no posso compreender as suas frases, quando ele 
fala.  necessria alguma capacidade de participao em empatia subjetiva, at para compreender a linguagem 
de outrem, como mostrarei num subseqente captulo deste livro. (Por isso  to difcil, quase impossvel, 
compreender algum que odiamos.) Um outro exemplo: 
Quando a pessoa que nos consulta  um paciente limtrofe, devemos ponderar se ela necessita ou no de 
hospitalizao e, nesse caso, qual ser o melhor mtodo.; mas, nesse momento, estou fora dela e no fazendo 
terapia. Se pretendo fazer terapia com essa pessoa, no devo preocupar-me com suas expresses bizarras e 
sem sentido, mas sim com qual seja o significado oculto em seus smbolos? Se o paciente afirmar que dois e 
dois so cinco, no devo indagar que espcie de psicose isso indica, mas devo procurar descobrir o que para 
ele significa afirmar tal coisa? S assim ele ser, finalmente, ajudado a libertar-se disso. 
Um psicoterapeuta meu colega observou que, como num jogo de tnis, ele alterna entre ver o paciente como 
um objeto  quando pensa em padres, dinmica, prova de realidade e outros aspectos dos princpios gerais a 
que o comportamento do paciente se reporta e como um sujeito, quando empatiza com o sofrimento do 
paciente e v o mundo atravs dos olhos dele. 
O mesmo ocorre em nossa vida cotidiana. Se procuro atuar como sujeito puro, livre e desligado das 
exigncias finitas dos sinais de trnsito e dos princpios mecnicos que me dizem qual a velocidade mxima a 
que meu carro pode fazer uma curva, vou acabar,  claro, por sofrer um desastre e, geralmente, o fracasso no 
ser to nobre nem teatral quanto a queda de Icaro. Por outro lado, se decido lidar comigo mesmo como 
objeto puro, plenamente determinado e manipulvel, passo a ser impelido, conduzido, esterilizado, no 
afetado pelas minhas experincias e delas divorciado. E, nesse caso, o meu corpo tem, geralmente, uru 
sobressalto para me recordar que no sou um objeto mecnico, abatendo-me com um resfriado ou um ataque 
cardaco. Curiosamente, ambas essas alternativas  ser puramente livre e puramente determinado  
equivaleni  mesma espcie de brincar de deus, no sentido de que arrogantemente nos recusamos a aceitar o 
dilema que  o nosso destino e o nosso grande potencial como seres humanos. 
Procuremos apurar agora a nossa definio. No estamos simplesmente descrevendo dois modos alternativos 
de comportamento e tampouco  muito exato dizer que somos, simuUaneamente, sujeito e objeto. O ponto 
importante  que a nossa conscincia consiste num processo de oscilao entre os dois. Com efeito, a nossa 
conscincia no consiste, precisamente, nessa relao dialtica entre o que experimentamos como sujeitos e 
como objetos? O processo de oscilao confere-me potencialidade  eu posso escolher entre uma coisa e outra, 
posso jogar todo o meu peso de um lado ou do outro. Seja como for que possamos alternar ao lidar com 
outrem  digamos, com um paciente em terapia  quando estamos lidando com ns prprios  a defasagem entre 
as duas formas de reagir o que tem importncia. A minha liberdade, em qualquer acepo genuna, no reside 
na minha capacidade de viver como sujeito puro mas, antes, na minha capacidade de experimentar ambos os 
modos, de viver no relacionamento dialtico. 
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Como vrios autores, incluindo eu prprio, se esforaram por descrever alhures essa capacidade, em maior 
detalhe, no abordarei aqui as suas implicaes infinitamente vastas. Apenas acrescentarei que esse hiato 
entre sujeito e objeto sublinha a nossa experincia temporal e indica por que motivo o tempo  uma dimenso 
to importante para os seres humanos.  a experincia de uma distncia entre sujeito e objeto, de um vazio 
criativo, que deve ser considerado e preenchido. Ns fazemos isso pelo tempo; dizemos: Hoje estou aqui, 
amanh estarei ali. Pelo mesmo princpio,  na experincia dessa relao dialtica entre sujeito e objeto que a 
linguagem humana, a matemtica e outras formas de simbolizao nasceram e se desenvolveram. A relao 
entre a linguagem e a nossa experincia do tempo , pois, extremamente interessante: a linguagem torna-se 
possvel por causa da nossa capacidade de conservar o tempo  experimentamos um hiato que devemos 
remediar de algum modo. A linguagem tambm nos confere poder sobre o tempo  dizemos hoje, amanh; 
planejamos as nossas vidas para a semana e o ano seguintes. E podemos at dar aquele surpreendente 
passo final na conscincia de um sujeito que sabe ser tambm um objeto: prever, no tempo futuro, a nossa 
prpria morte  isto , Eu sei que, em algum momento futuro, deixarei de ser. 
Este dilema ficou inesquecivelmente gravado em meu esprito numa conversa, h uma dzia de anos, com o 
fsico Werner Heisenberg. Quando estvamos juntos num automvel, para uma viagem de vrias horas que 
nos levaria a uma conferncia, aproveitei a oportunidade para lhe pedir que me explicasse o seu princpio de 
indeterminao. Sendo uma pessoa condescendente, ele acedeu ao meu pedido. No decurso da sua explicao, 
salientou a sua convico de que o nosso conceito natural e herdado de natureza como um objeto ali fora  
uma iluso, de que o sujeito faz sempre parte da frmula, de que o homem que v a natureza deve figurar nela  
o experimentador em seus experimentos ou o artista na cena que pinta. Essa polaridade sujeito-objeto, indicou 
Heisenberg, era o que ele e Niels Bohr chamavam o princpio de complementaridade. Neste ponto, ele fez um 
aparte:  claro que vocs, psiclogos, sempre soubedvel  aquela que faz a sua escolha dentro do hiato. 
Quando ela decide pintar um quadro, por exemplo, liberta-se para deixar que a sua viso, as suas fantasias, os 
seus impulsos irracionais, entrem em jogo. Quando estuda para um exame final, por outro lado, a pessoa 
coloca-se num modo bem controlado, objetivo e extremamente dirigido. 
O nosso dilema foi expresso de muitas maneiras por biologistas, filsofos, telogos e artistas. Embora a linguagem de 
alguns daqueles que eu vou citar agora no seja certamente psicolgica, eles representam, no obstante, srias formulaes 
dos fenmenos que a Psicologia deve levar em conta e, de algum modo, harmonizar-se com eles. Kurt Galdstein, com base 
em seus estudos neurobiolgicos, descreveu esse fenmeno como a capacidade do homem para transcender a situao 
concreta e imediata de que ele 6, inevitavelmente, uma parte, e pensar em termos abstratos  isto , pensar em termos de o 
possvel. Goldstein sustentou, na companhia de muitos investigadores nessa rea, que essa capacidade  o que distingue o 
homem dos animais e da natureza inanimada, na escala evolucionria. 
Paul Tillich, de um ponto de vista filosfico, descreveu o dilema como a liberdade finita do homem: o homem  finito 
2 Uma exceo estimulante  a pesquisa realizada por Robert Rosenthal, em Harvard, sobre as inclinaes do 
experimentador em Psicologia. Rosenthal recrutou trs grupos de estudantes finalistas para participar num experimento 
que envolvia a corrida de rato num labirinto. Ele informou ao primeiro grupo de estudantes que os ratos que lhes foram 
entregues eram particularmente inteligentes; ao segundo grupo nada foi dito sobre os animais; e o terceiro grupo foi 
informado de que os seus ratos eram sujeitos especialmente estpidos. Na realidade, todos os ratos eram naturais, isto , 
a mesma capacidade ou falta dela. Contudo, os ratos do primeiro grupo atuaram significativamente melhor no labirinto, os 
do terceiro grupo (os supostamente estpidos) atuaram pior, tambm num grau nitidamente significativo. 
Rosenthal e seus colegas repetiram esse experimento de muitas formas diferentes, incluindo experimentos com sujeitos 
humanos. No h dvida de que a inclinao ou expectativa do experimentador influencia, de fato, o desempenho dos 
sujeitos, apesar de todas as precaues terem sido tomadas para assegurar que os diferentes experimentadores dariam, 
exatamente, as mesmas instrues aos seus sujeitos. 
Ento, como  que a expectativa do experimentador foi comunicada aos ratos e outros sujeitos? Parece altamente provvel 
que tenha sido por movimentos do corpo. Rosenthal est tentando agora determinar, pelo estudo dos filmes de tais 
experimentes, O que  que foi comunicado. Tambm me parece que o tom e a inflexo da voz e uma linguagem subliminar 
infinitamente variada, pela qual comunicamos sem saber, seriam fatores significativos. 
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 medida que est sujeito  morte, doena, limitaes da inteligncia, percepo e experincia, e outras foras 
deterministas ad infinitwn. Mas, ao mesmo tempo, o homem tem liberdade de relacionar-se com essas foras; 
ele pode estar cnscio delas, dar-lhes significao, selecionar e lanar seu peso em favor desta ou daquela 
fora que nele atua. Reinhold Niebuhr, de um ponto de vista mais teolgico, descreve o fenmeno como 
decorrente do fato da experincia humana combinar natureza e esprito, e do homem funcionar 
simultaneamente nessas duas 
dimenses. 
O biologista suo Adolph Portmann, por seu turno, descreve o homem como caracterizado pela abertura 
universal. Quer dizer, embora o homem esteja vinculado ao seu meio natural de uma quantidade infinita de 
maneiras, por um lado, ele est apto a, por outro lado, exercer uma liberdade de movimentos em relao ao seu 
meio. Existe, neste caso, uma progresso evolucionria: as rvores e outras plantas possuem pouca liberdade 
de movimento em relao ao seu meio; os animais, com a locomoo e os progressos em novos sentidos, 
possuem maior amplitude de movimento. Mas o verme ainda est preso ao universo do verme e o gamo ao 
universo da sua floresta, ao passo que no homem, surge uma nova e radical dimenso da abertura universal. 
O livre jogo dos membros, escreve Portmann, que d ao beb humano tantas possibilidades mais ricas do 
que as que o macaco ou o grande smio recm-nascidos possuem, lembra-nos que o nosso estado, ao nascer, 
no  simplesmente impotente mas se caracteriza, pelo contrrio, por uma liberdade significativa.  em virtude 
do surgimento da conscincia que o homem possui essa dimenso radicalmente nova da abertura universal, a 
liberdade de movimento em relao ao meio objetivo. E, de particular importncia para a nossa anlise aqui, a 
capacidade do homem para autoconscientizar o fato de que  um ser simultaneamente escravo e livre confere 
ao fenmeno o carter genuno de um dilema, em que alguma deciso deve ser tomada, quanto mais no seja a 
recusa em aceitar responsabilidade .pela liberdade implcita dessa abertura universal. 
3 Adolph Portmann, Biologisehe Fragmente zu einer Lekrc qom Menschen, Basilia, 1951, pg. 30. Sou grato a Ernst 
Schachtel por algumas discusses proveitosas sobre Portmann e por esta citao. Cf. Ernst Schachtel, 
Metamorhosis, Basic Books, Nova York, 1959, pg. 71. Outros biologistas alemes, como J. von Uexkll e V. von 
Weizscker, partindo de diferentes abordagens, chegaram a concluses semelhantes s de Portmann. 
Os artistas,  claro, tm vivido na intimidade desse dilema humano desde que um caverncola apanhou, pela primeira vez, 
canios e cores, e lutou com as condies recalcitrantes da tinta, das paredes da caverna e das formas, tentando fazer com 
que um desenho comunicasse a sua experincia subjetiva de um biso ou veado. Eugene ONeill descreve o dilema como 
sendo o do determinismo biolgico, a que ele chama Fora ou Destino, em confronto com a capacidade do homem para 
moldar o determinismo. Em 1925, escreveu ele numa carta: 
Estou sempre profundamente cnscio da Fora e da eterna tragdia do Homem, em sua luta gloriosa e autodestruidora para 
fazer com que a Fora o exprima, em vez de ser, como um animal , um incidente infinitesimal em sua expresso. E a minha 
orgulhosa convico  de que esse  o nico tema sobre o qual vale a pena escrever e de que  possvel desenvolver uma 
expresso trgica em termos de valores e simbolos modernos transfigurados no teatro, a qual poder, em certo grau, 
convencer os membros de uma platia moderna sobre sua identidade nobilitante com as figuras trgicas do palco.
EvIDENTEMENTE, uma coisa  que Eugene ONeill e os artistas sejam bem sucedidos na soluo desse dilema; mas uma 
coisa muito diferente  trazer o fenmeno para o mlifto da cincia psicolgica. O dilema que estamos delineando, em 
traos gerais, foi, compreensivelmente, um embarao e, em certos aspectos, um escndalo para a Psicologia. Esforando-se 
por construir sistemas cientficos empricos, o psiclogo v-se imediatamente jogado num torvelinho de autocontradies. 
Quanto mais vigorosamente tenta ser puramente objetivo sobre os seus dados e o seu trabalho, mais ele se v colhido na 
subjetividade, por muito que o negue. Uma formulao do dilema foi feita por Morris 
R. Cohen: Ao contrrio do fsico, o psiclogo.., investiga processos que pertencem  mesma ordem  percepo, aprendiza 
em, pensamento  do que aqueles pelos quais ele conduz a sua investigao. 

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A dificuldade em que a Psicologia cai, ao menosprezar ou tentar evitar esse dilema,  ilustrada por uma carta 
que recebi justamente quando estava escrevendo este captulo introdutrio. A carta, de colegas num excelente 
departamento universitrio de Psicologia, informava-me que o meu nome tinha sido escolhido numa 
amostragem de membros da American Psychological Association. Faria eu o obsquio de participar no 
estudo deles, checando uma escala no carto anexo? A posio numa extremidade do carto era a seguinte: 
Estou diante da janela do berrio e olho para os recm-nascidos. Como eles parecem diferentes quando so 
olhados minuciosamente! Se fosse possvel conhecer as dimenses a medir, poderamos ver a os primrdios 
dos estilos individuais que se mostram persistentemente ao longo da vida. 
A posio oposta era a seguinte: 
Estou diante da janela do berrio e olho para os recm-nascidos. Sorri quando me surpreendi observando um 
deles e imaginando a sua personalidade. Como  insensato supor que as dimenses do estilo pessoal que 
poderamos, concebivelmente, medir no berrio, persistiro atravs da mirade de encontros que aguardam a 
criana, o adolescente, o jovem adulto. 
Era solicitado a assinalar se concordava plenamente com uma posio ou com a outra, ou em que ponto a 
minha opinio se situava, numa escala entre os dois extremos. 
Ora, o problema com semelhante escala  que essas posies no so opostas, em absoluto. Um paciente meu 
que acabara de ser pai contou que o obstetra, ao sair da sala de partos, lhe dissera: Voc tem a dentro um 
beb comprido... Ser um sujeito bastante alto. Obviamente, aquele pai e qualquer de ns que olhe 
objetivamente para um beb, saberemos que o tamanho fsico, o equipamento neurolgico e outros elementos 
que so dads ao nascer e podem, em certa medida, ser medidos, exercero alguma influncia no estilo do beb 
ao longo da vida. Mas, de um modo igualmente bvio e slido, o pai e qualquer um de ns, quando nos 
identificamos sub jetivamente com um dos bebs, estaramos preocupados com as poderosas experincias em 
seu futuro desconhecido (guerra atmica? radiao?) que podero mudar radicalmente o seu desenvolvimento 
e contrariar at o eqtipamento fsico originalmente dado. Como  que checarei a escala dos meus colegas 
depende de como decidir relacionar-me, nesse momento, com os recm-nascidos. Se estive em minha roupa de 
trabalho e dando aula a uma turma de Psicologia, a minha tendncia ser para pensar na posio previsvel  
e ai do estudante que no se der conta de que deve assinalar uma posio perto do plo, se estiver tentando 
obter seu grau! 
O que est errado no questionrio no so os detalhes;  o pressuposto bsico, como um todo. Os dois plos 
no so opostos mas duas dimenses em que pensamos e experimentamos o tempo todo. Eu estava sendo 
solicitado a abstrair-me da minha experincia humana e a assumir um papel; e o que semelhante teste obtm 
no so os juzos ou a experincia dos depoentes, mas os papis que eles assumem. 
Nessa situao extremamente difcil e, por vezes, insolvel, no  surpreendente que aqueles que, dentre ns, 
escolheram ser psiclogos experimentem uma considervel dose de insegurana intelectual e se coloquem at 
na defensiva, a respeito da nossa cincia. Estou argumentando que essa insegurana no pode ser evitada 
sem violentar o nosso material, a saber, o ser humano. A grande preocupao com a metodologia em 
Psicologia parece estar relacionada com essa insegurana, assim como a esperana  que, a longo prazo, 
acredito que deva certamente ser ilusria para ns, como foi para os fsicos  de que, se pudermos encontrar o 
mtodo certo, ficaremos livres do dilema humano. Assim, alguns terapeutas, por exemplo, advogam a tese de 
que no faamos a pergunta que melhor nos habilitar a compreender o nosso sujeito humano, mas, antes, a 
pergunta que suscitar aquela resposta quantitativa que melhor se ajuste ao nosso mtodo e sistema. 
Ora, estou certamente cnscio, se assim posso me expressar sem parecer pedante, que a necessidade 
imperiosa de honestidade  um dos motivos que leva os psiclogos a procurarem medidas quantitativas, a 
necessidade de descobrir se realmente compreendemos melhor o ser humano e buscar formulaes que no 
sejam dependentes dos nossos prprios critrios subjetivos. Tambm estou cnscio de que a pesquisa, em 
nossos dias, tem de ser cuidadosamente estabelecida, para que os resultados sejam ensinveis e possam servir 
de base ao desenvolvimento de outras pesquisas. O impulso irrefrevel para chegar  verdade  o que nos 
aperfeioa a todos como psiclogos e  parte e parcela da integridade intelectual. Mas insisto em que no 
deixemos que o impulso para a honestidade nos ofusque e reduza o nosso campo de viso, para que no 
percamos de vista a prpria coisa que procuramos compreender  o ser humano vivo. Devemos ir alm da 
ingenuidade da f de que, se pudermos che 
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gar, de algum modo e em ltima instncia, aos fatos empricos, nus e crus, teremos alcanado, finalmente, 
porto seguro. 
O Professor Feigi faz bem em lembrar-nos que os nossos embaraos no so facilmente superados. Declarou 
ele: Apenas sugerirei que o empirismo radical tem muito a ver com o desejo de segurana intelectual, isto , 
com o desejo de restringir as nossas extrapolaes ao domnio em que elas foram inteiramente testadas... A 
fobia da hiptese tem sido, freqentemente, um trao da personalidade dos positivistas. O 
Para mostrar alguns dos problemas e questes que decorrem do que eu chamo o dilema humano, desejo aludir, 
ainda que brevemente, aos debates entre dois psiclogos que so universalmente conhecidos como 
representantes das duas pontas desse dilema, B. F. Skinner e Cari Rogers. A partir de seu trabalho sobre 
condicionamento operante, o Professor Skinner prope que o dilema  ou bifurcao, como ele o denomina  
pode ser evitado pela aplicao universal dos seus pressupostos e mtodos behavioristas. Se argumentarmos 
que o organismo individual reage, simplesmente, ao seu meio, em vez de a alguma experincia ntima desse 
meio, a bifurcao da natureza em propriedades fsicas e psquicas pode ser evitada.   Em outros lugares, 
Skinner argumenta em prol da necessidade e inevitabilidade do controle externo sobre o homem, afirmando que 
o controle interno  irrelevante e  embora eu ignore se ele leva em considerao todas as implicaes desse 
enunciado  os controles externo e interno so a mesma coisa. 
Sim,  possvel evitar a bifurcao omitindo, precisamente, um lado do dilema, a experincia subjetiva, e depois 
 como a experincia subjetiva se recusa a permanecer apagada  incluindo-a, simplesmente, no controle 
externo. Ou, pelo menos, isso pode ser feito no papel e em situaes especialmente controladas de laboratrio 
e hospital. Mas se me permitem que faa uma inocente pergunta, baseada no que vemos demonstrado a todo o 
momento em psicoterapia, no  um fato que as pessoas reagem a uma experincia interna do seu meio, vem o 
seu meio em-termos de sua experincia passada e o interpretam em funo de seus prprios smbolos, 
esperanas e temores? 
  Num discurso proferido na conveno anual da American Psijchological A  ociation. H. Feigi, The Philosophical 
Embarasaments of Psychology, American P ychologist, 14:125-126, 1959. 

Alm disso, quando Skinner sustenta que, em educao, a criana pode ser moldada como o oleiro 
modela o seu barro. a nossa rplica no  que isso seja impossvel. Isso funciona, em certa 
medida e em determinadas situaes. Mas esse ponto de vista no deixar de fora uma 
experincia significativa que voltar a assediar-nos  no deixar fora da equao, por exemplo, as decisivas 
motivaes subjetivas na aprendizagem, como aquelas a que Jerome Bruner chama de curiosidade e Robert White chama de 
desejo de competncia? Sempre que ouo a metfora do oleiro aplicada a seres humanos, preparo-me para escutar o trovo 
e a acusao de nimis sim plicandum varar os cus como um raio desferido do Monte Olimpo. 
Essa perturbadora questo surge tambm quando lemos o interessante debate de Skinner (postumamente, pelo menos para 
uma das partes) com Dostoievski: 
O estudo - do comportamento humano  escreve Skinner  tambm responde  queixa cnica de que existe uma obstinao 
n,anifesta. no homem que sempre contrariar os esforos para aperfeio-lo... Dostoievski afirma ver nisso algum plano. 
Por ingratido pura e simples, queixava-se ele ou, possivelmente, vangloriava-se, o homem  capaz de armar alguma 
jogada baixa para provar que os homens ainda so homens e no teclas de um piano... E mesmo que pudssemos provar 
que um homem  apenas uma tecla de piano, ele seria ainda assim capaz de fazer algo, por mera perversidade 
 gerar destruio e caos  s para levar a melhor. . . . E se tudo isso pudesse, por seu turno, ser analisado e evitado, prevendo 
a sua ocorrncia, ento o homem enlouqueceria deliberadamente para provar o seu ponto de vista. 
Skinner passa ento a apresentar a sua prpria reao s asseres do romancista russo. 
Isso  uma reao neurtica concebvel num controle inepto. Alguns homens podem t-la manifestado e muitos se 
deliciaram com a afirmao de Dostoievski porque tendem a manifest-la. Mas que tal perversidade seja uma reao 
fundamentaal do organismo humano s condies controladoras  um completo disparate. 
Ora,  necessrio esclarecer primeiro as implicaes de petio de princpio de certas palavras usadas pelo Professor 
Skinner. Vamos supor que Dostoievski no estava se queixando nem vangloriando mas procurando, to-s, enunciar 
um ponto que ele considera importante. Tampouco devemos nos iludir com o 

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fato de Skinner se desfazer de um antagonista pelo diagnstico psicopatolgico, um erro de que ns, 
psicoterapeutas, somos geralmente acusados, isto , rotulando a afirmao de Dostoievski como reao 
neurtica e sustentando que aqueles que se deliciaram com ela (em cujo nmero tenho a franqueza de dizer 
que me incluo) tambm manifestam a reao neurtica. Alm disso, a resposta do Professor Skinner a 
Dostoievski  um completo disparate. 
Mas recordamos ser esse o Dostoievski que nos deu as caracterizaes emocionantemente profundas dos 
1rmos Karamazov e o quadro maravilhosamente sutil do desenvolvimento psicolgico em Crime e 
Castigo, e que, por unanimidade de opinies,  um dos maiores estudiosos e retratistas da experincia 
humana em toda a Histria. No deve haver algo radicalmente errado numa soluo do dilema que requer  ou 
permite  que Dostoievski seja posto de lado como um completo disparate? E afastamo-nos da discusso 
com a profunda convico de que, muito depois dos nossos atuais mtodos psicolgicos terem sido relegados 
para os arquivos poeirentos e substituidos, repetida- mente, por novos mtodos, a obra de Dostoievski 
prosseguir serenamente seu curso, revelando gerao aps gerao a sua penetrante sabedoria sobre a 
experincia humana. 
Cari Rogers, no outro lado da plataforma dos debates, argumenta sistemtica e firmemente que o controle 
interno  que  significativo, uma vez que  centrado no cliente e no no meio. Rogers sempre acreditou que, 
se dermos ao paciente o relacionamento humano certo isto , um relacionamento marcado pela congruncia, 
o respeito, a aceitao de todos os sentimentos  ento o paciente crescer naturalmente para a maturidade, 
responsabilidade e outras finalidades usualmente aceitas da terapia. Rogers tem sido descrito como 
rousseauesco e o fato  que ele aceitou prontamente a classificao. De maneiras diferentes, ele declara 
repetidamente a sua convico de que o ser humano  requintadamente racional e que aceitar o que 
racionalmente for melhor para ele, se lhe dermos a oportunidade certa. Tudo isto equivale a um enunciado 
enftico do outro lado do dilema. 
Mas eu gostaria de suscitar vrias interrogaes. As minhas perguntas baseiam-se, principalmente, nas 
minhas observaes como um dos dez juizes da terapia, no recente projeto rogeriano de quatro anos de 
pesquisas, na Universidade do Wisconsin, sobre o tratamento de esquizofrnicos pela terapia centrada no 
cliente. 
Ao escutar as gravaes dessa terapia, impressionou-me o fato de que, embora os terapeutas rogerianos 
fossem excelentes para mostrar a solido, resignao, abandono, tristeza etc. do paciente, eles praticamente 
nunca mostravam a clera do pacente. Outras emoes negativas, como a agresso, a hostilidade e o conflito 
genuno (distinto do mero desentendimento), tambm estavam quase que ausentes naquilo a que o terapeuta 
respondia nas gravaes. E dei comigo perguntando aos meus botes: Ser que esses pacientes nunca 
sentem raiva? Por certo que os sentimentos de hostilidade e as expresses do desejo de brigar nunca podem 
estar inteiramente ausentes numa pessoa, exceto numa patologia quase completa. E resultou que, afinal, no 
estavam ausentes nesses pacientes; ocasionalmente, as gravaes denunciavam um paciente enfurecido com 
o pessoal do hospital ou com o prprio terapeuta. Mas, quase sempre, o terapeuta no se apercebia disso, 
interpretando o sentimento como solido ou fruto da ineompreenso de que o paciente se considerava vtima, 
ainda que este tentasse explicitar com clareza a sua emoo, com imprecaes furiosas e blasfmias. 
Outros juizes dessas gravaes tambm assinalaram o fracasso dos terapeutas em perceber ou responder s 
emoes agressivas e negativas. E, de fato, Rogers e seus colaboradores foram levados, eles prprios, a 
interrogar-se sobre esse ponto, em seu resumo dos comentrios de todos os que julgaram as revises clnicas: 
Particularmente impressionante foi a observao quase unnime de que o processo de terapia centrada no cliente evitou, 
de algum modo, as esperadas e usuais expresses de sentimentos negativos, bostis ou agressivos do paciente.  evidente a 
sugesto implcita de que o terapeuta centrado no cliente parece, por alguma razo, menos acessvel  recepo de 
sentimentos negativos, hostis ou agressivos. Ser que os .terapeutas tm pouco respeito pelos (ou escassa compreenso 
dos) seus prprios sentimentos negativos, hostis ou agressivos, sendo por isso incapazes de perceber esses 
sentimentos no paciente? 
 preciso, portanto, que formulemos a pergunta: A nfase de Rogers sobre a racionalidade e a sua convico de 
que o indivduo escolher, simplesmente, o que  racional para ele, deixaro de fora uma vasta parcela da 
gama da experincia humana, a saber, todos os sentimentos irracionais? Concordo que no seja 
requintadamente racional morder a mo que nos alimenta, mas  justamente isso, entretanto, o que os 
clientes e pacientes fazem  o que  uma das razes por que eles neces 
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sitam de terapia. Alm disso, essa clera, agressividade e hostilidade expressam, freqentemente, o mais 
precioso esforo do paciente no sentido da autonomia, a sua maneira de tentar encontrar algum ponto em que 
ele possa rebelar-se contra as autoridades que sempre sufocaram a sua vida  que a sufocaram tanto pela 
gentileza como pela explorao. 
O que queremos dizer  que uma nfase excessiva sobre o subjetivo, o plo da liberdade do dilema humano e a 
negligncia do homem como objeto determinado, tambm  um erro. Rogers pode concordar parcialmente, pelo 
menos em teoria, com este ponto. Num artigo recente, escrito depois da pesquisa acima referida, ele analisa o 
que chamou o paradoxo da experincia humana: 
Estou certo de que uma parte da existncia moderna consiste em enfrentar o paradoxo de que, encarado por 
uma certa perspectiva, o homem  uma mquina complexa... Por outro lado, numa outra dimenso da sua 
existncia, o homem  subjetivamente livre; a sua escolha e responsabilidade pessoal explica a sua prpria 
vida; ele , de fato, o arquiteto de si mesmo... Se, em resposta a isto, o leitor diz: Mas esses pontos de vista 
no podem ser ambos verdadeiros, a minha proposta  esta: A est um profundo paradoxo com o qual 
temos de aprender a viver. 11 
Perfeitamente certo. Mas no  possvel discernir, nesse artigo, se Rogers tem conscincia de que tal afirmao 
muda completamente o seu anterior pressuposto de que o homem  requintadamente racional e escolher 
sempre a coisa certa, se tiver oportunidade para faz-lo. Pois se admitirmos o paradoxo acima, no 
poderemos continuar falando de um simples crescimento como a necessidade bsica do ser humano, visto 
que o crescimento est sempre dentro de uma relao dialtica, num dilema que nunca  plenamente resolvido. 
12 Qual , ento, a coisa certa? Uma coisa  encar-la do ponto de vista da liberdade e da subjetividade: 
Gauguin larga o seu emprego num banco e a sua famlia e vai pintar no Taiti  e 6 muito fcil, trs quartos de 
sculo mais tarde, quando as suas pinturas so investimentos financeiros rendosos, esquecer at que ponto a 
sua 
11 Cari Rogers, Freedom and Commitnient, aula proferida no San Francisco State College, 1963. 
12 Pelo mesmo princpio, Rogers sempre rejeitou as implicaes totais dos conceitos de resistncia e de 
represso formulados por Freud  conceitos esses que me parecem expressoes muito importantes do dilema 
humano. 
liberdade deve ter parecido irresponsvel na poca. Mas que dizer da coisa certa do ponto de vista do 
homem que, ao contrrio de Gauguin, quer ser ajustado  sua vida de bancrio, quer ser ajudado a ser um 
objeto social bem sucedido em sua sociedade? No estou insinuando que devemos terminar, simplesmente, 
com as relatividades culturais e morais  isso tambm  uma soluo demasiado fcil para justificar a situao 
humana. Estou afirmando, ao contrrio, que supersimplificamos critica- mente a nossa concepo de ns 
prprios e dos nossos semelhantes e que devemos incluir em nosso quadro o dilema na experincia humana. 
Podemos prenunciar alguns aspectos da nossa futura discusso do problema mencionando aqui que as 
consideraes aciina esclarecem por que Kierkegaard e Nietzsche realaram tanto o cometimento. O prprio 
fato de aceitarmos um lado ou outro de um paradoxo acrescenta uma nova fora que no estava presente 
antes, e que no pode ser includa num simples conceito de crescimento. Quando a pessoa prefere agir, um 
novo elemento j  adicionado ao padro motivacional; e no podemos conhecer a medida ou direo dessa 
fora enquanto a pessoa no decidir atuar. 
Neste captulo introdutrio, descrevi o dilema humano como a capacidade do homem para ver-se como objeto 
e como sujeito. A minha tese 6 que ambas so necessrias  necessrias  cincia psicolgica,  terapia efetiva 
e  existncia significativa. Tambm estou propondo que no processo dialtico entre esses dois plos 
reside o desenvolvimento, assim como o aprofundamento e a ampliao da conscincia 
humana. O erro de ambos os lados 
 para o que usei como exemplos Skinner e o Rogers pr-paradoxo  consiste no pressuposto de que podemos 
evitar o dilema adotando um dos plos. No se trata, simplesmente, de que o homem deve aprender a viver 
com o paradoxo; o ser humano sempre viveu nesse paradoxo ou dilema, desde os tempos remotos em que, 
pela primeira vez, se apercebeu ou conscientizou o fato de que ele era aquele que morreria e inventou uma 
palavra para a sua prpria morte. Doena, limitaes de toda a espcie, e todos os aspectos do nosso estado 
biolgico que indicamos, so facetas do lado determinista do dilema: o homem  como a grama dos campos, 
definha e morre. A conscincia disto e a atuao baseada nessa conscincia constituem o gnio do homem 
como sujeito. Mas tambm devemos aceitar as implicaes desse dilema em nossa teoria psicolgica. Entre as 
duas pontas desse dilema, o homem desenvolveu sfmbolos, arte, linguagem e a espcie de cincia que est em 
permanente expanso, a partir de seus prprios pressupostos. Viver corajosamente com esse dilema , crejo eu, a fonte 
da criatividade humana. 1  
So consideraes deste gnero que iremos abordar nos captulos que se seguem. 
13 ONeill acreditava.., que, para o ser humano vivo, a verdadeira reconciliao dos opostos consistia em viv-los 
profundamente e suport-los corajosamente (op. cit., pg. 24). Parece que os artistas sempre souberam isso, 
intuitivamente. Rainer Maria Rilke escreve em Carta a sm Jovem Poeta: No procures agora as respostas, que no podem 
ser-te dadas porque serias incapaz de viv-las. E a questo : viver todas as coisas. Vive as interrogaes agora. Talvez 
possas ento, gradualmente, sem te aperceberes, viver na resposta, em algum dia distante... (Rainer Mana Rilke, Lettrts te 
a Young Poet, W. W. Norton & Co., Nova York, 19 4). 
